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Amor e guardanapo
Um homem pode ter ficado, ou mesmo, namorado muitas mulheres, mas nunca
ter aprendido a amar uma única mulher. O amor é de todos os amantes, mas cada
um precisa aprender amar a amada de maneira singular. Infelizmente, muitos
nunca aprenderão isso, serão sempre amadores na arte de amar, pois amar dá o
trabalho suficiente para que se prove que o que se dizia em palavras e gestos
afetuosos era de fato amor. Mas é preciso que se diga que o amor é vivo,
portanto, como qualquer organismo vivo, corre o risco de morrer.
As duas primeiras sentenças desse
parágrafo anterior rodavam em um guardanapo desses de companhia aérea por entre
as páginas de um livro que estou lendo há alguns dias. Certamente as escrevi em
viagem, inspirado por alguma coisa que o Gilbert K. Chesterton disse, mas por
algum tempo não tive motivação para coloca-las em algum texto, contudo, hoje,
ao sentar-me para ler as páginas finais do livro,deparei-me com o guardanapo, e
a frase pareceu-me mais sedutora, mas não somente a frase, o guardanapo também,
a ponto de eles me arrancarem do assento onde lia e me obrigar a escrever.
Agora,o guardanapo já não me
parece um objeto descartável, atribui-lhe um sentido mais nobre do que o de
limpar bocas alheias. A tinta de caneta azul, com minha cacografia,parece-me mais
bela do que a impressão da logomarca da companhia aérea. Parece-me que a vida é
assim, a gente vai aprendendo atribuir beleza, digo, sentido a coisas e pessoas
com as quais nos relacionamos. Mas de início só preservei o papel descartável
porque ele carregava uma frase que me pareceu interessante demais para
descarta-la com o papel macio, todavia, depois a frase fez sentido e agora já
me apeguei a ambos.
Se não percebeu o que isso tem a
ver com amar, então vou compartilhar mais um fragmento textual que anotei, pois
era valioso demais para deixa-lo solto em um livro com milhares de palavras
altaneiras.Não é meu, é do Globot: “Já se está amando quando se advinha no
amado uma fonte de felicidades inesgotáveis, indeterminadas, desconhecidas...
Então o amado ainda é um meio, um meio único e impossível de substituir por
inumeráveis e indeterminados fins... Ama-se verdadeiramente, ama-se o amigo por
ele próprio, como o avarento ama seu ouro, quando, tendo-se deixado de considerar
o fim, o meio é que se tornou o fim, quando o valor do amado de relativo,
tornou-se absoluto”. Se não entendeu, leia quantas vezes for necessário.
Pois bem, fato é que ao nos
relacionarmos com as pessoas, elas são normalmente um meio para alcançarmos
alguns fins, mesmo que esses fins sejam nobres. Quando nos interessamos por
alguém, sempre há uma razão de ser, não acontece do nada, mesmo que não
saibamos identificar. A pessoa tem características que percebemos que podem nos
ajudar a atingir determinados fins, mesmo que o fim seja carinho, segurança,
palavras de conforto, apoio, sorrisos etc. Pasmem, mas somos assim, ao nos
relacionarmos com alguém, sem nos darmos conta,nos perguntamos: “O que vou
ganhar com isso?”. Dizer isso parece uma blasfêmia para os românticos, mas
alguns tipos de blasfêmias ajudam a nos livrar de alguns infernos emocionais.
Somos atraídos por algumas
qualidades perceptíveis racionalmente, ou não, na outra pessoa, por isso,
precisamos ter uma hierarquia das qualidades ou valores que nos interessam num
relacionamento. Essas qualidades não são somente o que você vê, mas a resposta
inconsciente, ou mesmo consciente, do que você tem a ganhar com aquela pessoa.
Pois se isso não for avaliado antes de iniciar um relacionamento ou de resolver
seguir adiante, pode ser um grande vacilo, pois aquilo que era um meio, ou
seja, estar com a pessoa,em questão de tempo, se tornará um fim. Eis o apego e
o infortúnio.
Contudo, nem tudo está perdido. O
caminho de volta ao desapego é duro, mas é possível se se entender que por mais
que a pessoa tenha se tornando em um fim para o apaixonado, ou seja, por maior
que seja o apego, pode-se fazer o exercício de devagar ir percebendo que a
pessoa de início era somente um meio para satisfazer algumas necessidades
sentimentais, psicológicas, sociais etc. do momento. Se o caminho rumo ao fim
em si mesmo é o da construção, o de volta é o da desconstrução, não somente da
imagem do outro, mas da imagem, prazeres e sentimentos de si mesmo.
Minha reflexão aqui parece pragmática,
contudo, é, sobretudo, prudente, por isso trago uma frase de Guiguesle Chartreux:
“É-te duro ter perdido isto ou aquilo? Logo, não busca perder; pois é buscar
perder querer adquirir o que não se pode conservar”. Seja no início ou no meio
do caminho, percebemos que não podíamos conservar o que, por ora, parecera-nos
agradável. Na verdade, não percebíamos que buscávamos perder o que não podíamos
conservar, ou seja, de alguma maneira já sabíamos que o queríamos não era bom
ou realmente apropriado para nós.Mas, sempre temos aquela boa dose de teimosia
típica do encantamento da paixão, e, por vezes, queremos pagar para vê no que
vai dar.
Sinto dizer que essas coisas são
como guardanapos usados para escrevermos frases em alguma viagem, um dia a gente
olha diferente para ele e não mais quer jogar fora.Contudo, outro dia, mais
cedo ou mais tarde, a genteescreve a frase em um texto maior, modifica-a e
vai-se embora o apego pelo papel descartável, pois afinal de contas já se
sabia, ele era apenas um mero guardanapo. E a gente se pergunta, “como fui
capaz de guardar isso por tanto tempo?”.
Por Lucas Nascimento
terça-feira, 2 de abril de 2013
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Lucas Nascimento
A idolatria da boniteza
"Seja mais humano, namore alguém que seja belo, não aceite menos que isso."
Eu posso dizer que a vida é bela,
mas nem sempre posso dizer que ela é bonita. Ela é bonita quando me deparo com
coisas e momentos harmoniosos, de perene alegria, quando estou diante de
paisagens agradáveis e de situações favoráveis. Apesar de não sabermos
diferenciar muito bem os dois termos, e filosoficamente haver diversas
definições que se interseccionam, posso afirmar, por simples intuição, que ser
belo é uma coisa, bonito é outra coisa. Não consigo ver proximidade sinonímica
entre ambos os termos, mas também não posso dizer que são antônimos porque o
belo compreende o bonito, bem como o não harmônico.
Boniteza está ligada meramente às
linhas estéticas que de alguma maneira se harmonizam ou mesmo seguemalgum
padrão estético-cultural. Contudo, beleza é algo que vai além das linhas, podendo
ser o despertar súbito para algo que nos religa e nos transforma, é o olhar a
partir do não visível para o visível. Por exemplo, uma determinada pintura pode
não ser bonita, mas pode muito bem ser bela, pois pode tocar profundamente quem
a sabe enxergar, e nem sempre esse toque é à primeira vista.
Quando se diz que em nossa época há
uma ditadura da beleza, na verdade, a beleza não pode ser ditadora, pois a
beleza liberta nossos sentidos, mas o que há é a ditadura da boniteza, a
ditadura daquilo que é superficial, quando não artificial, daquilo que muitas
vezes é molde de uma época e cultura, daquilo que nos deixa escravos da forma e
da matéria. Acredito que o belo não pode ser meramente contemplado no espelho,
o belo é aquilo que comunica muito mais do que se pode ver com os olhos, até
porque as coisas não são meramente coisas, há um significado por trás delas,
portanto é a possibilidade de sentido que dá beleza às coisas, que dá beleza à
vida. A beleza é um sentido esculpido em alguma forma. Deparar-se com a beleza
é deparar-se com a possibilidade de um sentido, mesmo envolto em mistério.
Pode-se dizer que algo passa a ser belo assim que passamos a minimamente
compreendê-lo.
A boniteza é um dos ídolos que
precisamos derrubar. Engana-se quem pensa que ídolos são apenas imagens feitas
de alguém com o fim de adorá-las. A noção de ídolo é bíblica e remete a tudo
aquilo que tenta absolutizar o relativo, se o homem tenta adorar a imagem de
Deus em vez do próprio Deus, isso é um ídolo, pois Deus é maior do que essa
imagem, e adorá-la é reduzi-Lo. O ídolo sempre reduz a percepção humana,
portanto contribui para a coisificação do mesmo. Sendo assim, quando se está
viciado num modelo de boniteza, a pessoa não consegue valorizar aquilo que é
diferente, nem muito menos o belo, só consegue escolher o que os olhos estão
viciados.
Quando escolho alguém para me
relacionar somente por seu valor estético, estou o tratando como uma coisa que
satisfará o meu desenfreado desejo pela forma, pelo corpo, pela boniteza. A
boniteza não é um problema em si, o problema é que confundimos boniteza com
beleza. Seja mais humano, namore alguém que seja belo, não aceite menos que
isso.
Nosso ponto de vista muda quando
mudamos o ponto de onde estamos olhando. A depender do que você busca em
alguém, esse alguém pode ser belo, mesmo não seguindo o padrão estético vigente.
Portanto, duvide das informações dos olhos, não deixe seus olhos olharem
sozinhos, nós não apenas vemos com os olhos, tudo em nós enxerga, os olhos são
o meio pelo qual a alma e o espírito enxerga, quem ver apenas com os olhos é
cego. É preciso ter cuidado para que os olhos não sejam maus, porque “são os olhos a lâmpada do corpo. Se teus
olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso. Se os teus olhos forem maus,
todo o teu corpo estará em trevas” (Jesus, o Cristo #Mt6.22-23). Então, a
boniteza é vista pelos sentidos representados pelos olhos, a beleza é vista
pelo espírito, alma e corpo, portanto, os olhos devem ser servos do espírito e
da alma.
O Mestre Galileu ao falar dos
olhos como lâmpada para o corpo está também assegurando que os olhos não podem
se tornar escravos dos sentidos, pois eles podem guiar nosso corpo para a
direção errada. É preciso educar nossos sentidos para ver a beleza, e a beleza
é também uma questão de ponto de vista.
Já reparou que algumas pessoas
bonitas se tornam feias à medida que você as conhece e outras se tornam bonitas
à medida que você se relaciona com elas? É isso, a boniteza é relativa, absolutizá-la
é uma forma de idolatria que nos induz ao erro, às más escolhas, porque quem
olha apenas com os olhos está dando poder demais aos sentidos. Não é uma
questão de rejeitar as informações dos sentidos, é uma questão de libertação
dos sentidos.
Tratando-se de relacionamento,
não significa que toda pessoa bela é para você se relacionar amorosamente com
ela, porque existem outros elementos que determinam tal relação, mas é preciso
libertar-nos e olhar para o outro como o todo. Escolher alguém para uma relação
romântica é enamorar-se por suas ideias e ideais, por sua conversa, por seu
Deus, por seu corpo, por seu jeito e até mesmo considerar seus defeitos, se não
for assim o enamoramento não passa de uma “paixãozinha”. Portanto, não sejamos
idólatras, não escolhamos namorar alguém por sua representação social ou por
seu agrado estético. Sejamos livres para escolher àquilo que de fato nos
transborde e nos surpreenda a cada dia com um toque de beleza, experimentemos
ser tomados e transformados pela beleza.
Como sou homem, dou-me a
liberdade de parafrasear Nelson Rodrigues, e fica a sugestão: Na mulher interessante, a “boniteza” é secundária,
irrelevante e, mesmo, indesejável. A “boniteza” interessa nos primeiros quinze
dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual. Era preciso que
alguém fosse, de mulher em mulher, anunciando: - 'Ser bonita não interessa.
Seja interessante!’. Seja bela, porque boniteza mesmo a gente compra numa boa
clínica de estética.
Por Lucas Nascimento
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
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Lucas Nascimento
Paixão Pode Passar Passarinho, Amizade não.
Minha linda Ave Marinha,
posso não ter esperanças suficiente para poder dar força a atitude de
fazer real a linha imaginária que liga meu coração ao teu jeito de voar
céu azulão. Nem por isso o sentimento que me faz querer-te bem deva ser
minguado. Bem-te-vi, porque tão real quanto o que sinto é a doçura
risonha entre mim e ti, te vejo sem ilusão, talvez por isso não fico
assim chorão. Nada de voar distante a ponto de eu não poder contemplar a
beleza desse teu jeito beija-flor. Quero que se lembre que jamais quis
fazer do meu coração uma gaiola, no mínimo um singelo ninho onde
pudésseis pousar as tuas andorinhas no inverno. Dizer quero-quero é um
canto que não se cala em meu peito coruja, é um sentimento cardeal, se
preferir cardinal também, é um profundo tico-tico. Só quero que tu não
fiques assim papa-capim por causa dessa tua ilusão canário. Oh! Minha
gaivota... É tão lindo ver-te assoviar essa tua melodia sabiá, que às
vezes chego a pensar ser eu o teu pássaro-preto. Mas sei que sou apenas
um joão-de-barro, no máximo joazinho, só que também sei que isso não
passa de uma doce gentileza albatroz e, às vezes, por ser somente isso
fico meio joão-de-bico-pálido. Confesso que assovio pela sua amizade,
jamais quero esquecer o som de teu doce papagaio, mas quero que não
fique tão iludida assim por martinho, porque acho que ele não quer ser
teu pombo, ele é mesmo um martim-pescador. É, pensando bem, talvez seja
melhor esse anum mesmo do que algum outro gavião. Mas quero que não te
esqueças dos momentos pelicanos que tivemos, dos olhares flamingos que
trocamos, das risadas patativas que demos, se fizeres essa grande perdiz
irei ficar me sentindo um pinguim. Não se preocupe minha linda águia,
esse sentimento pavão, com sabor de urubu, irá passar mesmo que seja
curió, mas enquanto ele não se vai, por favor, me deixe ficar aqui
fazendo minhas jandaias para ver se o tempo não passa tão passarinho
jacu. Ainda assim, com tudo isso, tu sempre serás minha linda garcinha.
Mais pardal que isso não pode ser, ave maria!!!
Por Lucas Nascimento
sábado, 3 de novembro de 2012
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Lucas Nascimento
Tem de se ter este amor
Tem de se ter um amor, pra falar assim baixinho,
Pra dizer só de carinho coisas que palavras não conseguem dizer.
Tem de se ter um amor, pra falar ‘sobre tudo’ de segredos;
Pra detalhar aqueles medos que só ele pode saber.
Tem de se ter aquele amor de completude:
De risada e gargalhada, de marmelo e poesia,
De biquinho e tudo mais.
Tem de se ter esse amor que não precisa ser perfeito,
Mas não vai ser de qualquer jeito e chamar isso de ‘môr’.
Ai de se ter o amor de singularidade, magia e afinidade, que supera até a dor.
Madrugada quente de primavera, 19 de outubro, 2011.
© Lucas Nascimento
Post inédito do livro (no forno) de Lucas Nascimento para o nosso blog. Obrigada e mttttttttt bem-vindo!
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Tag :
Lucas Nascimento,
poesia
Tudo através de ti...
Ele não queria se apossar
do lugar que é teu...
Ele sabia que Ele é tudo pra mim
se Ele é tudo e por que preciso de outros?
se Ele é tudo e por que tu ainda me restas?
do lugar que é teu...
Ele sabia que Ele é tudo pra mim
se Ele é tudo e por que preciso de outros?
se Ele é tudo e por que tu ainda me restas?
Deus é tudo enquanto o que me resta
não assume o seu lugar.
É o tudo porque me contenta, mas
tu és o que me completa completamente,
ainda assim, Ele continua sendo tudo através
do que me restava e só me completas
porque Ele é tudo em ti... E nada do tudo
tu tiras porque dele tu vens.
não assume o seu lugar.
É o tudo porque me contenta, mas
tu és o que me completa completamente,
ainda assim, Ele continua sendo tudo através
do que me restava e só me completas
porque Ele é tudo em ti... E nada do tudo
tu tiras porque dele tu vens.
O tudo não é menos tudo porquetu, meu amor, me completas, pelo contrário
Ele me completa através de ti,
pois foi assim que ele quis
e te criou e vive através de ti.
Não precisas buscá-lo distante...
Deus é tudo em meu coração
aqui é o tabernáculo do amor,
da eternidade, da ternura e Ele é Amor...
Vem! Deus me ajudou a armá-lo
só pra a gente se completar...
Deus é tudo em meu coração
aqui é o tabernáculo do amor,
da eternidade, da ternura e Ele é Amor...
Vem! Deus me ajudou a armá-lo
só pra a gente se completar...
Se buscas o jardim de Deus,
vem ver, foi ele quem plantou
bem aqui dentro
pra juntos exercermos a arte de cuidar...
E assim Deus sendo o tudo
nada mais é do que o inexprimível contentamento
que a tudo preenche só pra nos completar.
Completa de tal forma que nos dará
tudo, se nele a gente sonhar...
vem ver, foi ele quem plantou
bem aqui dentro
pra juntos exercermos a arte de cuidar...
E assim Deus sendo o tudo
nada mais é do que o inexprimível contentamento
que a tudo preenche só pra nos completar.
Completa de tal forma que nos dará
tudo, se nele a gente sonhar...
© Lucas Nascimento
Post inédito do livro (no forno) de Lucas Nascimento para o nosso blog. Obrigada e mttttttttt bem-vindo!
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Tag :
Lucas Nascimento,
poesia



